Domingo, 1 de Outubro de 2006

Pessoas como nós - I

“Estou farta de brincar às mães perfeitas, às mulheres de sucesso, às actrizes de talento, às pessoas boazinhas e queridas que têm sempre tempo para ouvir os outros e os ajudar (...) Verónica chamava-me “Madre Teresa”, quando me queixava. “Andas sempre a pensar nos outros para não pensares em ti, não é?” Puta, acerta sempre.  Há quase vinte anos que me ouve, me atura, me trava as inseguranças, me acalma os nervos, me limpa as lágrimas e me lambe as feridas. Habituei-me a não dar um passo na vida sem lhe perguntar, mesmo que depois faça tudo ao contrário. Como fiz com o Zé Pedro.(...) quando o Zé Pedro me pediu em casamento (...) de joelhos, muito atrapalhado, com um anel piroso a chamar por mim (...) e me derreti como um gelado em cima de um radiador porque era a primeira vez que alguém me pedia em casamento, a Verónica disse tem cuidado, ele está velho e cansado, vai-te sugar a juventude, a beleza e o talento (...) e eu, a Jane Birkin nacional, apaixonada pela maturidade, pela experiência, pelo charme do senhor realizador que via em mim uma estrela (...)“vamos  construir o mundo, tu és a minha diva, a minha deusa, a minha Tàgide, vou fazer muitos filmes por ti e para ti” aos vinte anos achava que o mundo devia de ser um lugar melhor do que aquele r/ch onde crescera, entalada entre o medo do dia seguinte e o cheiro a lixívia, quando a minha mãe saía do seu habitual torpor e lhe dava para ter ataques de limpeza (...) o sorriso cínico da Maria do Carmo a ver quando é que eu deixava cair alguma coisa ou fazia uma nódoa para dizer logo, muito alto e com muita clareza, numa voz de menina de colégio particular, adocicada de veneno: “está a ver, mãe, como ela é desastrada? (...) eu calada, sempre calada, sem lhe conseguir responder, era a minha irmã mais velha (...) queria ser amiga dela, nunca consegui (...) nunca se interessou por mim e sei muito bem porquê. Ciúmes do meu pai. Ciúmes das entradas triunfais, a chegar do “serviço”, como lhe chamava, a atirar com a pasta e o sobretudo ao chão para me agarrar e me levantar como uma pena: “Como está a minha princesa linda?” e a lambuzar-me de beijos, ignorando a minha mãe, baça com os calmantes, e a Maria do Carmo, a torcer a ponta da saia da farda do colégio e a espumar de raiva (...) a minha mãe servia para encher o prato de comida, manter as camisas engomadas, a casa limpa e os sapatos engraxados (...) batia-lhe à nossa frente e depois batia na Maria do Carmo porque ela se punha no meio, enquanto eu me encolhia e pedia a Deus que nunca me deixasse crescer muito, para ele não se lembrar de me bater (...) mas eu nunca quis ser actriz, como todas as crianças, sonhava ser cantora (...) a ideia do conservatório foi ideia do meu pai (...) coitado do meu pai, que fora figurante em filmes e sonhara com o estrelato, amarrado atrás de uma secretária sebosa da repartição, onde, vim a descobrir anos mais tarde, que conseguiu dormir com quase todas as mulheres do edifício e subiu nas letras da função pública à conte do seu irresistível charme de actor falhado. Deve ter sido por nunca ter pisado um palco que decidiu fazer da sua vida uma encenação permanente, daí os desequilíbrios, as mudanças de personalidade, os desvios, os ataques de loucura (...) eram as mulheres que ficavam doidas, os homens sempre gozaram de uma imensa impunidade neste país de machos latinos que lhes granjeou a liberdade para fazerem tudo o que quisessem sem que nunca ninguém lhes apontasse o dedo, enquanto as mulheres, à mínima manifestação de diferença, eram segregadas, apontadas como loucas ou desequilibradas e marginalizadas pela própria família, pelas falsas amigas e pela sociedade. O meu pai podia ter internado a minha mãe, se quisesse. Hoje olho para trás e tenho a certeza de que isso lhe passou pela cabeça. Não suportava a presença física dela, torpe e desajeitada. Mas foi sempre um fraco, sempre precisou dos cozinhados, dos vincos nas calças (...) quando ela não andava encharcada em calmantes, porque era preciso (...) a família da Verónica (...) tudo bate certo, ninguém fala alto, a mãe nunca levantou um dedo para dar um tabefe a nenhum filho, o pai nunca chegou bêbado a casa nem tarde para jantar (...) a casa dos pais da Verónica é o símbolo do status que a família tem na sociedade (...) a primeira vez que a Verónica me convidou para almoçar com os pais, há muitos anos, eu tinha acabado de me casar com o Zé Pedro numa das salas do Castelo de S. Jorge (...) o Zé Pedro apanhou uma bebedeira descomunal e foi encontrado na casa de banho aos linguados com uma actriz muito alta, morena (...) tão antipática comigo e tão viscosa com o Zé Pedro.  Quem os apanhou foi a Verónica, mas não me contou logo, só uns meses depois, quando comecei a ter problemas com o Zé Pedro e ela achou que era bom eu conhecer a mãe dela e ouvir os seus sábios conselhos (...) a Verónica é uma mulher segura, feliz, focada no que quer e no que sonha, uma mulher com sorte. Devia de ter mais amigas assim, normais, equilibradas, em vez do bando de doidas que gravita à minha volta, que ressuscitaram quase de repente, mais ou menos ao mesmo tempo em que comecei a ter a merda do sucesso por causa da merda da série de televisão onde faço de professora cega, e comecei a ganhar a merda do dinheiro que me fez pensar que ia ser rica e me pus a comprar esta merda de casa imensa, perdida no meio desta quinta húmida desta merda da Serra de Sintra onde o verão passa mais ou menos dez dias por ano (...) o absurdo da realidade a que vou assistindo acaba por me anestesiar e com um gin tonico por companhia fica tudo mais fácil e é então que o Duarte entra em casa com a trunfa a tapar-lhe a vergonha do acne, mas sobretudo a vergonha de ser filho daquela actriz  que dá tesão de borla aos pais dos amigos do colégio porque já fez três vezes de prostituta em longas-metragens, graças ao génio do ex-marido, que conseguiu realizar sempre o mesmo filme, com a mesma história, sem nunca ninguém ter reparado, e que, por isso, é hoje considerado uma referência obrigatória no panorama do cinema português (...) a grande ironia de tudo isto é que a puta da história sempre foi o Zé Pedro, uma autêntica puta na minha vida. Durante mais de dez anos conseguiu sacar os subsídios porque toda a gente sabia que a actriz principal era eu, e que por isso os filmes iam ter audiência. E ele sempre muito paternal, muito protector, eu vou fazer de ti a maior actriz deste país, eu vou-te dar o mercado português. E eu muito estúpida, muito ingénua, a achar que tinha tido imensa sorte porque o senhor realizador, o nome mais importante do cinema nacional, me tinha escolhido para sua diva, sua musa, sua fonte de inspiração (...) coitado do Zé Pedro (...) hoje, tudo o que mais odeio num homem está vivo nele (...) o seu mau perder, misturado com os dentes estragados e o hálito insuportável a álcool, afastou-o das pessoas de sucesso (...) anda por aí, aos caídos, a queixar-se da sua triste sina a quem tiver paciência para o ouvir, enquanto me chama puta entre dentes (...) mas a culpa é minha, foi sempre minha, porque quem não quer ser puta também não lhe veste a pele.” Margarida Rebelo Pinto in Pessoas como nós

publicado por etoulixada às 21:21
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