Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2006

Pessoas como nós - II

“O Duarte era o meu bebé. O meu anjinho, o meu ponto de equilíbrio, aquilo que nunca falhava na minha vida, quando tudo mais era uma merda. Era o meu grande orgulho e o meu maior amor, que nunca me cansava nem me desiludia (...) era o miúdo que, com seis anos, quando num dia de tristeza lhe pedi para me dizer uma coisa que me fizesse feliz, agarrou a minha cara com as duas mãos, fitou-me profundamente e disse: - Sabes uma coisa, mãe? Toda a gente diz que a mãe é muito bonita por fora, mas eu acho que a mãe ainda é mais bonita por dentro. Sempre  foi uma criança fácil em tudo, que nunca ficava doente nem acordava a meio da noite, que comia o que tinha no prato até ao fim, que não fazia birras, que sabia fazer a cama e arrumar o quarto e ralhava comigo quando eu dizia um palavrão. Tudo mudou com a entrada na adolescência. De um ano para o outro perdi-o o Duarte entrou para o armário sem aviso prévio e, quando dei por isso, já não consegui que, no meio da parvoíce típica do crescimento nesta idade, deixasse uma frincha para poder comunicar com ele. (...) Vivo com um estranho em casa e esse estranho é o meu filho. (...) O Duarte nunca mais chega e estou a começar a entrar em paranóia. Como é típico dos putos da idade dele, tem o telemóvel desligado (...) a mãe só me quer arranjar problemas, acha que não me chega ser filho da actriz armada em boazona, ainda quer que os meus amigos gozem comigo porque vou armado em cocó. (...) e só não lhe enfiei um estalo porque ele me travou a trajectória a meio, agarrando com força o meu pulso, muito mais fraco do que o dele. – O respeito é uma coisa muito bonita (...) meu malcriadão; - A mãe é que me educou assim (...) se sou mal – educado, a culpa é sua. E desapareceu porta fora, como um estranho, deixando-me com a mão no ar e um nó na garganta.

(...) foi então que me apareceu no estúdio um miúdo (o Gonçalo) acabado de chegar de Nova Iorque que estudara representação na New York Film Academy (...) tinha a mania de me deixar bilhetes em inglês dentro da carteira cheios de obscenidades em todas as línguas que falava, nos quais se referia invariavelmente a mim como sex bomb, e é evidente que um dia não lhe resisti e demos uma queca dentro do carro, ao pé do Guincho. Ele ainda vivia com os pais e eu não o quis levar para a minha casa e misturá-lo com o Duarte, e também não me apeteceu ir para um hotel onde seria imediatamente reconhecida. Ando nesta merda de vida há mais de quinze anos e já matei muitos patinhos, miúdos e miúdas que têm a sorte de conseguir um bom papel e depois nunca mais fazem nada de jeito. Mas aconteceu-me a pior coisa, a mais vulgar e previsível que pode acontecer a uma actriz com trinta e sete anos, aterrorizada com as marcas das rugas que se acentuam no final de cada Verão: apaixonar-me. Perdi a cabeça por aquele Apolo, um monumento de espírito rebelde e carne fresca, que se estava cagando para o sucesso, para a imprensa, para as miúdas que se punham debaixo dele e, obviamente, para mim. Como todas as mulheres, só demorei a perceber o que era óbvio e não queria aceitar a verdade quando já era demasiado tarde para voltar atrás.

(...) Finalmente, às oito e vinte sete, quando estou quase a ligar para as emergências dos hospitais de Sintra e de Cascais, o Duarte assoma à porta (...) apetece-me começar já a mandar vir com ele, mas lembro-me que ao sair foi ele que bateu com a porta, por isso assumo uma atitude de mãe porreira, a ver se pega. Tenho que reconquistar esse miúdo, ser mais esperta do que ele e dar-lhe a volta, senão estou tramada, senão é que falhei em tudo na puta da vida e nem sequer uma boa mãe soube ser. Por isso, nem sequer levanto do sofá onde marinei o dia inteiro entre documentários do canal Odisseia e excertos de filmes e de série de diferentes categorias e peço-lhe para ir tomar um duche rápido, porque o jantar não pode esperar. (...) E desaparece a galope pelas escadas acima, certamente perplexo com a minha atitude calma e descontraída. É meu filho e talvez me conheça melhor que ninguém, mas esquece-se que sou actriz e que, se estiver uma pilha de nervos e for obrigada, por força das circunstâncias, a comportar-me como uma professora de Yoga, consigo enganar toda a gente, sobretudo a ele, que, antes de me ver como actriz, sempre me viu como mãe. Em casa, sentada à mesa com o Duarte (...) sinto-me vencida, exausta, perdida, destruída, como se nada valesse o esforço. Daqui a dez anos o Duarte tem vinte e cinco, deve estar a estudar fora desde os dezoito, talvez nem queira voltar para Portugal. Eu terei quarenta e sete anos e já não poderei fazer de puta nas longas metragens. Só se for de puta velha, dona de uma casa de alterne. Quem sabe, um dia ...  (...) o jantar já acabou e o Duarte despede-se com um beijo rápido e ausente, volta a galopar escada acima para se fechar no quarto dele e trocar ordinarices com desconhecidas no messenger, ouvir musica e ver as revistas que o pai lhe dá e que ele pensa que estão muito bem escondidas debaixo do forro de papel da gaveta das t-shirts. Sento-me outra vez em frente à televisão (...) selecciono pela milionésima vez o número do Gonçalo, (...)  ainda me sinto mais estúpida, mais fraca e mais vulgar. (...) ligo outra vez a televisão e assisto a um concurso de cultura geral, a uma série americana deprimente mas bem feita e ao jornal da meia-noite com as desgraças do costume. Daqui a dez anos estarei ainda mais só, fechada nesta quinta, ideal para aparecer nas revistas e mostrar como soube gerir bem a minha carreira e o meu património (...) isto é, se ainda por cá andar, se não me tiver fartado desta merda toda e tomado uma caixa de Lexotans com chá de camomila para escorrer melhor e descansar para sempre.” Margarida Rebelo Pinto in Pessoas como nós.

sinto-me:
publicado por etoulixada às 23:44
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