Sábado, 23 de Dezembro de 2006

Milagres e Curas

"Uma das discutíveis vantagens de andar de carro no trânsito lisboeta é aproveitar para ler de raspão as gordas dos posters anunciadoras dos mais diversos eventos. Por razões seguramente económicas, em vez da cara ocupação dos Outdoors estrategicamente colocados e dos assépticos espaços de anúncios electrónicos, há muito quem aproveite túneis, prédios degradados, tapumes vários, para publicitar o escritor da moda, o concerto que há - de ser para a semana, o músico que lançou, ou vai lançar, mais um grande sucesso Há as peças de teatro, as conferências de entrada livre, os cursos sobre temas curiosos, as performances, as companhias de dança, os circos deambulantes. Também há listas de reivindicações, anúncios de manifestações, informações de um ou outro rally paper, de um ou outro restaurante, de um ou outro sortido de electrodomésticos, de algum acontecimento que foi, ou será, muito interessante mas que não se percebe de todo, no confuso ambiente de sucessivas camadas de papel colorido meio rasgado, meio conservado. Esta semana, imaginem, há um cartaz, fabuloso, que anuncia em letras garrafais: «milagres e curas». A sério. Não é o nome de uma peça, nem o de alguma performance, pelo menos no sentido habitual do termo. Precisa-se de várias paragens ou de uns dois ou três quilómetros de "pára – arranca" para se perceber que o cartaz anuncia, mesmo, um senhor estrangeiro que vem aí, não sei quando, fazer milagres e proceder a curas. Até poderia ser estranho. Não se dera o caso de já estarmos naquele limbo de cansaço pessoal, sazonal, civilizacional, ou lá o que é, e seria estranho, no meio de tantas propostas baratas – ou pelo menos módicas -, de iniciativas a tentar arrancar-nos do sofá e do quentinho doméstico, haver a proposta tão absoluta de afluirmos a um qualquer lugar em busca do excepcional a horas marcadas: milagres e curas.Não se dera o caso de o excepcional poder caber numa qualquer categoria tão trivial como todas as outras e até valeria a pena usar o modesto anúncio como fio condutor sobre níveis de crendice, os fenómenos obscuros de crescente desenvolvimento de categorias de novos sagrados; as organizações que se vão estabelecendo por apoio e manipulação de conceitos importantes. Não fora a fase do ano em que invocamos a espera do Pai Natal e o gozo antecipado de vir a ter a consola nova que sofistica, mais ainda, o recurso ao virtual ou em que pensamos no próximo ano como aquele que há – de cumprir esperanças e expectativas, provavelmente, acharíamos estranho divulgações grátis de curas e milagres. Mas, sendo assim...". Isabel Leal (Professora de Psicologia Clínica no ISPA) in "Caras Psicologia" em 23 de Dezembro de 2006.

publicado por etoulixada às 10:23
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